terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

ARCANO XV

As cartas de tarot estão sobre a mesa.
Tem sangue na minha boca depois de ter cortado o polegar com papel.
São 22 Arcanos Maiores.
Eu quero colocar meu coração sobre a mesa e então ele melaria as cartas com sangue, gordura e gosma de órgão.
O meu cérebro não se importa com as imagens coloridas, mas eu sim. Minha carne pode ser ferida, rasgada, mutilada; mas eu não.
Eu sou um monte de carne, ossos, água, órgãos, sangue e tripas. Vou repetir isso até morrer. Que ideia foi essa de colocar sentimentos dentro dessa bola viva de fluídos? Se Deus existe, eu o acho estúpido.
A última carta que eu viro é “O Diabo”. Quem eu sou para Satã? Com quantas legiões de demônios se faz um inferno?
Me irrito com as cartas que me mostram caminhos abstratos que eu mesma escolhi. Bem e Mal, Deus e o Diabo, loucura e sanidade. Conceitos inventados para proporcionar a enganosa sensação de que estamos em segurança. Como eu odeio isso.
E depois de muito ódio e frustração eu cheguei a apenas uma conclusão: o inferno não são os outros. O inferno somos nós.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

LUTO

Eu só tenho roupas pretas, mas nenhuma parece apropriada para um velório.
Que idiota eu sou, por dizer a mim mesma que não estava preparada para vê-la daquele jeito. Ninguém nunca está.
Eu estúpida escolhendo roupas quando deveria estar experimentando o luto pela primeira vez. Sofrer é um prazer.
Estou usando o colar de pérolas que ela me deu há alguns anos. Eu só o uso em ocasiões especiais. Casamentos, formaturas... E agora funerais.
Ela parecia tão pequena no caixão...
Alguém colou os seus lábios, fechou sua boca para sempre. Tento não pensar no quanto isso é assustador.
No dia anterior eu havia tocado seu rosto enquanto ela respirava com dificuldade em um leito de hospital. Mas ali eu não consigo olhar para ela.
Preciso de outra taça de vinho.
Agora ela foi enterrada e não posso mais vê-la, mas fico imaginando seu corpo em decomposição. É normal pensar nos nossos entes queridos apodrecendo depois que eles se vão?
Eu não sei.
É a primeira vez que perco alguém importante.
Deveriam escrever um livro de etiqueta para o luto.
Com um capítulo sobre o que se deve vestir em um velório no mês de dezembro, quando é tão quente. E quais os melhores sapatos para correr pelo cemitério, quando você está atrasada para o enterro.

domingo, 30 de dezembro de 2018

BRUXAS DAS TREVAS ANÔNIMAS - Programa de reabilitação para feiticeiras dependentes de Magia Negra


O BTA – Bruxas das Trevas Anônimas - é um programa de 12 passos desenvolvido para você, bruxa ou feiticeira que se embrenhou pelos caminhos da magia negra e que agora se encontra pagando o preço de tal escolha.
Sabemos que se libertar da magia das trevas depois de muitas luas praticando-a não é fácil, mas se você está lendo isso é porque provavelmente não suporta mais conviver com entidades malignas invadindo seus sonhos, animais rosnando pra você na rua ou o cheiro de enxofre e flores mortas que impregnou sua casa.
A hora de mudar é agora. Não deixe que as trevas continuem controlando o seu destino. Confira os 12 passos do BTA:

1. Admitimos que somos impotentes perante as trevas – e que perdemos o controle sobre nossas vidas ao compactuar com forças malignas.
2. Acreditamos que o poder superior dos deuses e da magia branca pode nos devolver a sanidade, a liberdade e até mesmo nossas almas - que cometemos o erro de vender para o demônio.
3. Decidimos entregar nossa vontade e nossa vida aos cuidados de bruxas curandeiras e dos deuses e deusas do destino.
4. Fazemos um minucioso e destemido relato de nosso envolvimento com as trevas em nosso Grimório ou Livro das Sombras. Dessa forma, poderemos analisar melhor nossas escolhas e impedir que a próxima geração do coven cometa os mesmos erros.
5. Admitimos perante os deuses, perante nós mesmas e perante as outras bruxas a natureza sombria de nossos feitiços e rituais.
6. Nos prontificamos inteiramente a permitir que os deuses removam de nós toda essa malevolência.
7. Humildemente rogamos a nossas ancestrais que nos livre de nossas ambições e desejos mais obscuros, que nos levaram a praticar feitiços de sangue, necromancia e/ou maldições.
8. Fazemos uma relação de todas as pessoas que tenhamos enfeitiçado, amaldiçoado, enviado pragas ou a própria morte, nos dispondo a reparar os danos a elas causados.
9. Fazemos reparações diretas dos danos causados a tais pessoas, sempre que possível, salvo quando essas pessoas já estão mortas. Neste caso, a melhor alternativa é pedir que Hécate interceda por suas almas.
10. Seguimos fazendo nosso inventário particular em nosso Livro das Sombras, e quando estamos erradas, nós o admitimos prontamente, buscando o conselho de nossas ancestrais mais sábias.
11. Procuramos, através da magia branca, melhorar nosso contato consciente com os deuses e com a magia, consultando conselhos através dos oráculos.
12. Tendo experimentado o renascer na bruxaria branca, graças a esses passos, procuramos transmitir essa mensagem a todas as bruxas dominadas pelas trevas e aplicar esses princípios em todos os nossos feitiços e práticas ritualísticas.

Se você se identifica com o BTA e acredita que esse programa pode ser a melhor solução para você, entre em contato conosco. Nossas reuniões acontecem em cemitérios espalhados por todo o país e será um prazer recebê-la. Apenas lembre-se de levar seu caldeirão, seu Grimório e sua garrafa de vinho tinto.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

SOBRE MULHERES E LOBOS

DONZELA

Arrumei o pão caseiro, o chá de hortelã e os ramos de açafrão na sacola de tecido. Ainda não havia anoitecido, então me arrisquei pelo caminho mais longo. Queria colher crisântemos para a minha vó.
A lua crescente era apenas um risco no céu pálido.
Fazia algum tempo que eu não a visitava. E agora, que a minha vó estava doente, me sentia culpada por aquela ausência. Por muito tempo havíamos sido muito próximas, quase inseparáveis.
Me lembro de uma ocasião em especial, quando eu tinha apenas 11 anos. Uma coisa assustadora havia acontecido comigo na escola e, em vez de pegar o ônibus e ir para casa, corri por quase dois quilômetros até a casa da minha vó.
Encontrei-a trabalhando no jardim, usando um grande chapéu para proteger seus olhos do sol. E, com horror e choque e constrangimento, lhe mostrei a mancha de sangue na minha calça.
Mas minha vó nunca se abalava por nada. Ela preparou um banho quente para mim e me deu roupas limpas – entre elas uma blusa vermelha com capuz. Então, pela primeira vez, enquanto trançava meu cabelo, ela me falou sobre os lobos.
Ela me disse que os lobos sentiriam o cheiro do meu sangue, então eu deveria ter muito cuidado a partir de agora. Diante do meu medo, ela me explicou que logo eu aprenderia a lidar com eles, embora jamais pudesse baixar a guarda.
A partir daquele dia, eu evitaria sair de casa sozinha, principalmente durante a noite. De vez em quando, chegavam até nós notícias de que os lobos haviam pego alguma menina da minha idade. Algumas vezes, a vítima era até mesmo mais nova. E o pior era que nem sempre os caçadores conseguiam encontrar os animais.
E eu vivia assim, assombrada pelos uivos, porque sabia que eles não iam, não iam parar.
Mesmo com tantos casos de ataques e mortes e alcateias, ainda havia pessoas que culpavam as meninas. Por andarem a noite sozinhas. Por se arriscarem pela floresta. Por colherem crisântemos ao pôr-do-sol...
Aperto o passo e puxo o capuz da jaqueta vermelha sobre minha cabeça. Tenho que chegar à casa da minha vó antes que anoiteça. Antes que os primeiros uivos, que começam a ecoar ao longe, me alcancem.

***
MÃE

Coloco os ingredientes da sopa no grande caldeirão de ferro – herança de família – e espero a água ferver. Abro a janela para deixar a luz da lua cheia entrar na cozinha, e o vento faz as chamas das velas aromáticas tremeluzirem.
Fazer sopa atrai fartura para a casa. Era uma superstição, mas eu acreditava nela.
Tenho vontade de dançar ao redor do fogo. E então os lobos, atraídos pelo cheiro da sopa, cercariam a casa na escuridão. Sei que o brilho das minhas chamas os manteriam afastados, mesmo famintos.
E então eu dançaria com eles, usando pimenta do reino e outros temperos para mantê-los dóceis e ao mesmo tempo obedientes aos meus comandos.
Contudo, esta noite não consigo me entregar ao prazer, mesmo com o fogo tão alegre, as chamas altas e o caldeirão borbulhando.
Tenho medo pela minha filha, correndo dos lobos ferozes, deixando que eles sintam o cheiro do seu medo. Gostaria de estar ao lado dela, mostrando como a simples luz de uma vela é capaz de espantar a mais densa escuridão.
Entretanto, preciso deixá-la ir ao encontro do seu próprio destino. Foi assim que eu aprendi, e foi assim que a minhã mãe também aprendeu, muito antes de eu nascer.
Assim como o caldeirão de ferro onde eu cozinho a sopa, a coragem é uma herança das mulheres da nossa família. Estamos destinadas a ela. Mesmo assim, hoje eu sei: a coragem costuma ser uma bênção, mas em alguns casos, devido ao mau uso, pode se tornar uma maldição.

***
ANCIÃ

As folhas caídas no parapeito da janela estão secas. A árvore no quintal está morrendo e é incapaz de continuar dando frutos. A lua minguante está desaparecendo aos poucos, e eu já posso imaginar o céu totalmente escuro.
A lua nova está vindo. Um ciclo termina, outro começa. Assim como sempre foi. Assim como sempre será. Que assim seja, que assim se faça.
Não tenho medo. Veja os meus braços: ainda há alguns músculos aqui, apesar da pele flácida. Esses são os braços de uma domadora de lobos, que já viveu entre as alcateias e conseguiu, em algumas situações, enfrentar e vencer o lobo alfa.
Naquele tempo era muito difícil encontrar uma mulher que ousasse enfrentar os lobos. Mas hoje, para a minha satisfação e surpresa, há cada vez mais delas correndo pelas matas, livres e fortes. Quase sem medo.
A última vela está se apagando. E posso ver os olhos brilhantes dos lobos lá fora, esperando. Seus ganidos e arquejos impacientes revelam o quanto estão ansiosos e famintos. Fome de carne, sede de sangue.
Tudo bem, estou pronta. Está na hora. Levem-me com vocês.
Vou soprar a última vela.
Não tenham medo.
Podem se aproximar, agora.

***
DONZELA

Está cada vez mais escuro e os uivos ficam cada vez mais altos. Corro depressa, o mais rápido que eu consigo, segurando a alça da sacola com força. Mas eu sei que é tarde demais. É tarde, tarde demais.
Não há nenhuma luz acessa na casa, nem uma única vela. Meu corpo inteiro está tremendo quando entro na cozinha. Os lobos já estavam lá, calmos e mansos depois de terem se banqueteado com a carne da minha vó.
Encontro seus ossos perto da janela e de uma vela apagada. Cubro cada um deles com os crisântemos e não consigo conter as lágrimas.
Eu não choro pela minha vó, a guerreira invencível, a corajosa domadora de lobos, que permitiu que eles devorassem seu corpo ao dar seu último suspiro. Eu choro por mim, a menina, sua neta, que perdeu sua amiga, protetora, guia.
Fico por um longo tempo ali, derramando minhas lágrimas sobre flores e ossos. Começo a cantar uma canção antiga, em uma língua já esquecida. Uma canção de luto.
Vejo os crisântemos se enroscarem nos ossos, como se os guardassem. Acendo a vela e os olhos dos lobos ao meu redor também se acendem, alertas. Todos eles se levantam e, silenciosamente, formam um círculo ao meu redor.
Não posso mais ter medo. Preciso honrar o sangue da minha vó, o sangue da minha mãe, o meu sangue – que um dia também será o sangue da minha filha e, depois, da minha neta.
Vou até um dos lobos da alcateia. Um lobo de pelagem escura, o maior que eu já vi. Prendendo a respiração, subo em suas costas, me agarrando ao seu pelo macio e denso.
Ele começa a correr, e sinto o vento passando pelo meu rosto e pelo meu cabelo. O capuz escorrega da minha cabeça, e quando crio coragem para abrir os olhos, vejo a noite e todas as suas estrelas passarem por mim como um borrão.
Os outros lobos nos acompanham, e quando eles começam a uivar, sinto um calafrio na espinha. Mas isso não me impede de uivar junto com eles, lançando minha voz na direção da lua.
Quando passamos por uma clareira, noto que outras alcateias estão se juntando a nós, e em cada uma delas há pelo menos uma mulher selvagem correndo com os lobos, uivando e até mesmo os liderando.
E mesmo com a incerteza, o luto e a dor, não consigo evitar um sorriso.
Porque sei que a minha vó ficaria orgulhosa.

***
Conto Vencedor do Prêmio Barueri de Literatura 2018
Categoria Conto - Autores Residentes Maiores de 18 Anos
1º Lugar

segunda-feira, 12 de novembro de 2018

GATA BORRALHEIRA


As histórias existem para serem contadas.
Contos de fadas sobreviveram através dos séculos, não porque são bonitinhos, mas porque nos ensinam lições. Isso é, se prestarmos atenção.
Cinderela fuma cigarros agora, mas está tentando parar. Ela usa um par de tênis de cano alto, e não precisa de convites para o baile, mas sim que alguma empresa se interesse pelo seu currículo.
Ela descobriu que a Fada Madrinha era na verdade um cartão de crédito, e tudo se transformou em dívidas terríveis depois da meia-noite do quinto dia útil.
Mas ela ainda gosta de dançar. Só pegou aversão por sapatos desconfortáveis, que se perdem por aí. E quando dirige pela cidade em seu fusca laranja – não muito maior do que uma abóbora – espalha as vozes de mulheres cantando o bom e velho rock n’ roll.
“Mas e o príncipe?”, você me pergunta. O príncipe é um cara legal, mas ele se casou com uma duquesa em Londres. Cinderela assistiu pela TV. Bom pra ele.
Ela gosta de ficar sozinha. Contudo, apesar dos problemas no âmbito familiar, fez algumas boas amigas. Cinderela nunca pensou que poderiam existir mulheres que gostassem dela, mas a vida é mesmo uma caixinha de surpresas.
O único problema é que Cinderela está cansada de limpar. De lavar roupa, esfregar o chão, ariar panelas. É isso que ela fez a vida toda.
Quando morava com a madrasta, dizia a si mesma que era obrigada a trabalhar para compensar o desleixo das irmãs postiças, mas agora, em seu próprio apartamento, não há como ignorar: ela é obcecada por limpeza.
Esfrega o chão até suas mãos ficarem vermelhas, e se esforça tanto para eliminar cada partícula de poeira que suas costas doem ao final do dia.
E ela até poderia beber uma taça de vinho antes de dormir, mas não se atreveria a deixar a taça suja na pia até a manhã seguinte.
Você conhece essa sensação, de não se permitir um minuto para relaxar? Até em seus sonhos Cinderela está limpando e, quando acorda, seu primeiro pensamento é arrumar a cama.
Ela coleciona desinfetantes perfumados e nunca os confunde que os amaciantes de roupas. Não cozinha nada que leve molho ou que precise da batedeira. Gosta do cheiro de incenso, mas não tolera as cinzas caindo em seus móveis.
E o mais triste de tudo é que não importa o quanto ela prive a si mesma.
Nunca está limpo o suficiente.
Mesmo ao tomar um banho que deveria ser relaxante, Cinderela esfrega sua pele com a bucha, com força, com voracidade. É possível lavar o medo? A insegurança? Dá pra fazer a ansiedade escorrer pelo ralo?
Eu não sei. A única coisa que eu compreendo, nesse momento, é que Cinderela precisava de uma maneira de sentir que estava no controle da própria vida e do próprio destino, mesmo que tudo não passasse de uma ilusão do seu Fantástico Mundo da Faxina.
Até que um dia ela encontrou a Gata. Ou talvez a Gata a tenha encontrado. Ela era malhada e tinha as patas sujas. Parecia estar morando na rua há um bom tempo. Mas ela era tão dócil e pequena, como uma coelhinha...
O apartamento não permitia animais, mas Cinderela sabia que a vizinha morava com um cachorro. E que um porco morava no apartamento de baixo, a julgar pelo lixo na varanda.
Então ela apagou o cigarro e escondeu a Gata dentro do casaco, o que fez a felina ronronar. Passou em um pet shop e comprou ração, areia sanitária e shampoo anti-pulgas.
No apartamento, teve que ligar a TV em um volume desconfortavelmente alto para encobrir os miados desesperados no banheiro.
Foi duro, e Cinderela tinha arranhões nos braços quando terminou, mas a Gata estava limpa e seca. Como o resto do apartamento. Como o resto do seu mundo.
Mas a bichana logo encontrou uma maneira de se vingar, pulando pelas prateleiras e derrubando porta-retratos, livros  e os itens de decoração nada baratos.
Cinderela tentou manter a ordem das coisas. Tentou de verdade. Mas não havia como impedir os pulos ágeis da Gata e sua curiosidade felina.
- Olhe o que você está fazendo, sua Gata Borralheira! _ Exclamou.
Mas Cinderela não conseguia ficar realmente brava. Mesmo diante do caos. Da bagunça. Do descontrole completo.
Com um suspiro, deixou-se cair no sofá. O espelho da sala permitia que ela visse seus cabelos desalinhados, a camiseta molhada e os braços arranhados, além das unhas com esmalte vermelho descascando.
Pegou o controle da TV e mudou de canal. Estava passando uma comédia romântica boba. Tão boba que ela não fez questão de mudar de canal. Fez pipoca de microondas e encheu uma taça de vinho.
Voltou para o sofá, e logo a Gata se juntou a ela. Cinderela pegou no sono, com o balde de pipoca ainda com restos de milho ao seu lado e a taça suja de vinho sobre a mesa de centro. Seus dedos salgados por causa do sal da pipoca. Ela não havia escovado os dentes, nem trocado de roupa, e a TV ainda estava ligada.
Cinderela não dormia tão bem há tempos. E naquela noite sonhou com alguma outra coisa, que não tinha nada a ver com sua mania de limpeza. Ela podia se preocupar com a bagunça amanhã.
As histórias podem ser muitas coisas, menos bobas.
Bobas somos nós, quando acreditamos que podemos controlar ou prever o nosso próprio destino – seja ele um belo príncipe, sapatinhos de cristal ou uma gata vira-lata.

segunda-feira, 29 de outubro de 2018

VIOLÊNCIA ARTÍSTICA

Nunca escrevi nada que prestasse até que aprendi a amar lutar.
E, quando se trata de arte, tenho minha paixão – e também uma teoria: se eu fosse emocionalmente equilibrada, nem um pouco depressiva e sem nenhum problema relacionado à ansiedade, acho que eu seria incapaz de fazer arte – pelo menos não da forma como a faço hoje.
Para mim, arte é violência.
Repudio a violência física, psicológica, sexual, moral e suas variantes, mas não consigo abrir mão da violência artística.
Eu faço arte para sentir. Para sofrer. E, em algumas ocasiões de sorte, para me libertar. E, sim, tenho a prepotência de chamar essas minhas palavras ordinárias de arte, na falta de um termo melhor.
Pobre garota de vinte e poucos anos, que pensa que sabe o que é sofrimento...
Mas será que é possível ser um ser humano sem sofrer? Sem sentir ódio? Sem querer esmurrar paredes e fazer das próprias tripas o coração?
Eu seria uma cretina se dissesse que a arte não me dá prazer. Como poderia? É a melhor coisa que existe. A única forma de chegar perto de conhecer os êxtases e decadências da humanidade.
Mas as coisas mais interessantes que eu já fiz ou já escrevi, mon chéri, foram resgatadas dos meus momentos de raiva, dor e pessimismo que nenhum antidepressivo poderia curar.
Preciso ser violenta na arte, para não ser violenta na vida. Minha violência artística é a minha válvula de escape da autodestruição.

terça-feira, 2 de outubro de 2018

CONFISSÕES DE UMA GAROTA MÁ

Sim, eu estou de volta.
Eu mesma, aquela que parece descolada no Instagram. Eu sou tão sexy com meus jeans tamanho 44, e meus tênis All Star vermelhos. Na minha bolsa sempre tem pirulitos de cereja e cigarros com sabor de cereja, também.
Você deve ter visto minha última foto na Starbucks, com alguma legenda cool. Provavelmente alguma frase de alguma música emo, indie ou rock.
E é claro que você conhece minha fama de Bad Bitch.
Mas deixa eu explicar como isso funciona, caso você ainda não saiba. Nós, Garotas Más, não somos más o tempo todo. Porque isso, obviamente, significaria que ninguém nos suportaria. E precisamos de pessoas que nos amem, assim como precisamos de doses descontroladas de açúcar.
Sou comum e até bem comportada em boa parte do tempo. Ofereço ajuda, apoio e conselhos aos meus amigos. Lavo a louça. Pratico na rua a boa educação que a minha mãe me ensinou em casa.
Só que às vezes sou má. Sou terrível. Comentários sarcásticos saem da minha boca e estouram no ar, como bolas de chiclete. Nada sutil, nada educado.
Às vezes sou simplesmente uma casca grossa. Insuportável. Uma aprendiz de Satã. E nem mesmo as pessoas que eu mais gosto escapam da minha vilania.
Mas isso todo mundo já sabe.
A parte complicada está além, muito além do batom cor de vinho tinto, das selfies fazendo carão e da atitude “I really don’t care, do you?”.
Minha atitude debochada - e, por vezes, intimidadora -, minha grosseria e os insultos que lanço aos quatro ventos não se comparam com a crueldade que pratico comigo mesma.
Não estou tentando justificar nada. Só estou dizendo que nos dias em que sou uma completa escrota com as pessoas das quais eu gosto, sem razão aparente, é porque provavelmente estou surtando demais pra perceber. Talvez tenha esquecido de tomar algum remédio. Talvez a depressão ou a ansiedade estejam me pressionando demais. Ou qualquer merda dessas.
E só estou escrevendo isso porque talvez eu não seja a única. Talvez alguma Garota Má tenha te chateado hoje. Talvez ela tenha agido como uma vagabunda sem coração, sem motivo nenhum.
E é claro que ela está errada.
Mas, talvez, você não precise se vingar.
Porque ela pode estar sendo um pouco má com você, enquanto está sendo totalmente horrível com ela mesma.

quarta-feira, 10 de maio de 2017

SOBRE ESTAR SÓ

  
Me deixa te dizer uma coisa que ninguém nunca te contou: a solidão dá trabalho. 
É cansativo cuidar de si mesmo. Dá trabalho ter que consolar a si próprio e dizer que vai ficar tudo bem. É cansativo ficar tentando entender os próprios sentimentos, analisar os próprios pensamentos e tentar encontrar uma resposta lógica e satisfatória para as próprias angústias.
Eu nunca na minha vida tive problema em andar por este mundo sozinha. Nunca me incomodei em me sentar sozinha em um bar ou em um café, pedir um drink ou um belo chocolate quente e desfrutar da minha própria companhia enquanto observo o resto do mundo girar. Sempre gostei da liberdade e do poder de ser dona de mim.
Mas quando a gente se torna adulto logo descobre que alguns dias são piores do que outros - e a maioria deles podem ser bem difíceis. E é daí que entra o trabalho psicoemocional de se estar sozinho. Vai além de dizer a si mesmo para se levantar da cama e não se atrasar para o trabalho. Tem momentos em que chegamos ao ponto de precisar convencer a nós próprios de que somos importantes e não podemos desistir.
O maior problema de se estar sozinho é que existem momentos em que sentimos uma necessidade desesperadora de compartilhar nossos pensamentos, nossas ideias, nossas frustrações. Seres humanos são seres sociais, crescemos acostumados a chorar e correr para os braços das nossas mães sempre que alguma coisa dava errado.
Contudo, o que fazer quando se é adulto e o colo da mamãe não é mais uma opção? Por que, sim, eu quero chorar nos braços de alguém e dizer tudo o que anda me angustiando. Quero alguém secando minhas lágrimas e dizendo que vai ficar tudo bem, com tapinhas desajeitados nas minhas costas e a promessa de uma xícara de chá.
Posso pensar em algumas pessoas que poderiam fazer isso. Pessoas importantes, queridas, que se importam. Mas mesmo com o celular a alguns centímetros de distância, eu não consigo chamá-las. Não é orgulho, é apenas uma sensação estranha de que preciso de alguém que me conforte sem que eu tenha que pedir.
Como ninguém pode ler meus pensamentos, a única pessoa que me resta, fatalmente, sou eu mesma. O que acaba sendo o suficiente na maioria das vezes - mas não sempre. Porque em algumas ocasiões, minha parte equilibrada e sensata também se perde para a solidão.
Mas eu estou aprendendo a lidar comigo. Estou me acostumando a ser sozinha nos momentos bons e nos ruins também. Dá trabalho, mas não tenho escolha se eu realmente quiser me tornar emocionalmente autossuficiente.
O que não posso permitir é que eu continue - vez ou outra - a ser cruel comigo mesma. Porque - convenhamos - tenho um talento natural para a crueldade.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

BRUXAS NÃO MORREM

Está na hora de você entender o significado do seu legado.
Devore seu próprio coração. Só assim ele continuará dentro de você, só que sob controle. Seja uma dama selvagem. Seja doce e cruel.
Bruxas não morrem. Elas apenas queimam e ficam esperando pela segunda rodada. No inferno, às vezes. Esperando pela hora mais oportuna para retornar. E enquanto isso elas escutam seus passos. Elas sussurram os segredos pra você.
Elas querem que você abra a porta para elas.
Você vai obedecer?
Sua alma vai ficando mais escura a cada dose.
Era uma poção. Era veneno. Não faz mais diferença.
Na madrugada, os todos os fantasmas podem ser ouvidos.
E eles dizem através dos seus pesadelos, o que você demorou muito tempo para perceber: é hora de encarar o seu lado mais sombrio.

sábado, 7 de janeiro de 2017

#MeuCaldeirão: Livro "Angélica"

Lygia Bojunga é aquele tipo de escritora que escreve livros infanto-juvenis repletos de lições e reflexões valiosas para todas as idades.
Recentemente, tive o prazer de reler Angélica, um livro que devo ter lido pela primeira vez lá pelos meus 10 anos. E, devo confessar, me surpreendi.
A história é fofa, o enredo é simples mas a crítica social é FODID@. Claro que eu não tinha consciência disso quando estava na quarta série, mas ao reencontrar esse livro 10 anos depois da primeira leitura, minha admiração por essa escritora só aumentou.

“Quando você não quer mais ser o que você é – dá pra mudar de pele?
Quando você não se conforma com o jeito que a sua família vive – dá pra mudar o jeito?
E quando você não arranja emprego – dá pra inventar um?
Se você tem que vender um pedaço de você mesmo pra sobreviver – dá pra ficar de bom humor?”