sábado, 20 de agosto de 2011

A MENINA, O MÉDICO E O MONSTRO: 7 - Inocente

Na sexta-feira depois da aula, como combinado, fomos à sorveteria. Sabina escutava um rock pesado nos fones de ouvido, em um volume tão alto que eu também conseguia ouvir.
Jaqueline me olhou atentamente e respirou fundo antes de começar a falar:
- Ok, Laura. Temos um assunto sério para tratar aqui: o que você vai vestir para a festa de amanhã?
Devolvo o olhar sério de Jaqueline.
- Acho que uma calça jeans...
Ela me interrompe:
- Não, Laura! Olha, você é linda. É ruiva natural e tem uma pele maravilhosa. Mas se quiser realmente chamar a atenção do Carlos ou de qualquer outro garoto, vai ter que se esforçar um pouco. Vamos tentar um vestido ou uma saia em vez de calça jeans, que tal?
- Que merda, Jaque. – Reclama Sabina. - Deixa e menina vestir o que ela quiser!
- Não, tudo bem. – Digo, começando a ficar preocupada. Eu não tinha parado pra pensar nesse detalhe. Se eu quisesse que Carlos me notasse e gostasse de mim, eu teria que estar bonita. – Jaque... Você pode me ajudar? Podemos sair e fazer umas compras?
Os olhos dela brilharam.
- Claro! Amanhã de manhã podemos ir ao shopping!
Nesse momento, Daniel chegou com um violão e se ajeitou em um banco próximo da nossa mesa.
Sabina tirou os fones.
- E aí? O que vai tocar pra gente hoje?
Ele deu um meio sorriso.
- Uma música nova que eu compus. Talvez entre no repertório de amanhã...
Sabina e Jaqueline se entreolharam, com visível culpa.
- Poxa, Daniel... – Começa Sabina. – Você sabe que a gente vai passar no Galera da Música depois da festa pra te ver, né?
- Não perderíamos a estréia da sua banda por nada! – Reforça Jaqueline.
- É, eu sei. – Responde ele, sem encará-las, afinando as cordas do violão. De repente ele me encara. – Você já foi no clube Galera da Música, Laura?
- Não. – Respondo.
- Ele vai tocar lá pela primeira vez com a banda dele amanhã à noite. – Explica Sabina. – E é claro que vai fazer o maior sucesso com as garotas! – Acrescenta, indicando com o queixo um grupo de meninas que já se aproximavam aos cochichos e risadinhas, esperando que Daniel começasse.
Daniel se posicionou com o violão, dizendo:
- Essa é a primeira vez que eu toco essa música. Terminei de compô-la ontem a noite e ela não sai mais da minha cabeça. Se chama Minha Garota. Espero que gostem.
As poucas pessoas da sorveteria pararam para prestar atenção enquanto Daniel começava a fazer os acordes vibrarem pelo pequeno salão.
Fiquei surpresa ao descobrir o quanto a voz dele era suave, e como as notas pareciam dançar no ar.

Minha garota
É tão linda e talentosa
Minha garota
É tão charmosa e perigosa

Vejo em seu rosto
O medo e o desejo
Em sua boca
Mora a tentação de um beijo

Quando o vento soprar
Nas folhas do luar
Vou de novo implorar:
Seja minha garota

Quando o sol raiar
Na areia do mar
Eu quero despertar
Ao lado da minha garota

Quando Daniel terminou, sob os aplausos da turma reunida na sorveteria, eu fiquei sem palavras.
Nunca pude dizer que gostava de música.
Em casa, os discos riscados do médico eram terrivelmente chatos e a experiência de dois dias atrás, quando Sabina me emprestou os fones de ouvido e o rock pesado invadiu meu cérebro, tinha me traumatizado.
Mas aquela música era diferente.
A letra era bonita, e a melodia era agradável. Daniel realmente era muito talentoso.
Mais tarde, Sabina e Jaque se despediram de nós, e Daniel se ofereceu para me acompanhar até em casa.
Fomos andando pela rua quase deserta, chutando pedrinhas pelo caminho.
- E então... – Começa ele, sem me encarar. – O que achou da música?
- Muito boa. – Digo. – Eu adorei.
Ele me deu um pequeno sorriso.
- Que tipo de música você gosta?
Dei de ombros.
- Gosto da sua música.
Por algum motivo, ele corou e desviou o olhar.
- Aposto que a sua banda vai fazer muito sucesso. E mil garotas correrão atrás de você...
Não era mentira.
Daniel era alto, tinha cabelo castanho e olhos bonitos. Um tipo que com certeza muitas garotas consideram atraente.
Mas ele não estava me escutando.
Ele suspirou e interrompeu o passo, e eu parei ao lado dele.
- Laura... – Começa ele. – É o seguinte: Você vai mesmo naquela festa amanhã?
Pensei em Carlos e quase sorri.
- Vou. – Respondo. – Mas prometo que vou passar na Galera da Música para ver sua banda.
- Não é isso – diz ele, balançando a cabeça. – Eu fico preocupado com você. Sabina e Jaqueline sabem se virar, mas você... Você é inocente demais.
Alguma coisa nas palavras dele me fizeram enrijecer. Inocente... Aquilo me lembrava dos tempos na Casa de Educação para Moças. Me lembrava de Adelaide.
- Eu não quero me intrometer, mas você parece ser muito tranquila. – Continua Daniel. – Não tem a malícia do pessoalzinho que anda com o Carlos... Se cuida, ok? Me prometa que vai ficar alerta.
- Eu prometo. – Respondo.
Na verdade, eu não havia entendido exatamente o que ele queria dizer com ficar alerta. Mas não perguntei. Não queria que Daniel me achasse burra, se é que ele já não achava.
Paramos em frente a minha casa, onde conversamos por um tempo. Daniel me contou sobre como havia aprendido a tocar violão com o pai e como havia formado uma banda com amigos que moravam no mesmo bairro que ele.
Quando percebemos, já estava começando a ficar tarde, então nos despedimos e eu entrei na casa escura.
Estava cansada e pretendia ir direto para o meu quarto, mas o som de vozes alteradas chamou a minha atenção. Era uma discussão.
- Você vai acabar criando um monstro! – Gritou Tia Olga. – Precisa por um fim nessa experiência. Não pode brincar com uma vida humana!
- Ninguém aqui está brincando! – Revidou o médico. – Esse é o meu estudo. Minha carreira.
- Se a Associação de Medicina soubesse o que você está fazendo... – Se lamentou ela.
- Você seria a primeira a ser levada, não? – Diz ele, em tom frio.
Bato na porta do laboratório e entro.
Os dois interrompem a discussão e me olham.
- Laura! – Tia Olga vem até mim. – Porque chegou tão tarde? Onde você estava?
- Na sorveteria, com uns amigos. – Respondo.
- Viu? – O médico dá um meio sorriso. – Ela estava com os amigos, como qualquer adolescente normal. Disse para não se preocupar. Ela sempre leva o celular, não é, Laura?
- É. – Digo, achando aquela conversa muito estranha. – Dr. Rezende, o senhor poderia me arrumar algum dinheiro? Preciso comprar roupas. Fui convidada para uma festa amanhã a noite.
Tia Olga solta um gemido.
- Não vai deixá-la ir, vai?
- Claro que vou. – Diz o Médico, ascendendo um dos seus charutos. – Ela precisa se divertir um pouco. Use o cartão de crédito que eu te dei, Laura.
- Porque não quer que eu vá, Tia Olga? – Pergunto.
- Pode ser perigoso uma garota como você sair a noite sem um adulto. – Diz Tia Olga, torcendo as mãos. – Mas não é da minha conta. Preciso ir. Tenho que descansar meus velhos ossos.
Ela passa por mim, indo na direção do porão.
Vou para o meu quarto, sentindo-me cansada e ao mesmo tempo animada com a festa do dia seguinte.
Me deitei sem me preocupar em trocar de roupa, e tive sonhos estranhos, que não pude compreender direito. Mas acho que foram uma espécie de pressentimento. Como se, inconscientemente, eu soubesse do pesadelo que estava prestes a enfrentar.

CONTINUA

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