sexta-feira, 26 de agosto de 2011

A MENINA, O MÉDICO E O MONSTRO: 8 - Não brinque com o meu coração

Olhei no espelho e quase não reconheci minha imagem.
Aquela garota não se parecia comigo.
As ondas perfeitas e brilhosas do cabelo ruivo, a pele lisa e luminosa, os olhos grandes contornados, aquela boca vermelha... Estranho, muito estranho. Sem contar a saia, e, claro, as pavorosas botas de salto alto que Jaqueline me havia ensinado a usar quase sob ameaça.
Outra versão minha. Uma versão menos esquisita e menos sem graça. Jaqueline havia me transformado daquele jeito especialmente para a festa.
Eu disse a ela que passaria em casa para avisar meu pai que iria chegar mais tarde, mas na verdade eu estava checando se o laboratório estava em ordem.
Depois de verificar tudo, sai para o corredor e dei de cara com Tia Olga.
- Como você está bonita! – Exclamou ela. – Aposto que muitos garotos da escola são apaixonados por você.
- Não são, não. – Digo, rindo.
- Me conte, querida, tem algum menino bonito na sua escola?
- Tem, sim. – Baixo os olhos para os pés.
- E você gosta dele? – Pergunta Tia Olga, ansiosa.
- Gosto. – Respondo, baixinho.
Nós duas rimos. Foi então que notei o médico, parado do outro lado do corredor. Me perguntei se ele havia escutado nossa conversa, mas se escutou, não demonstrou nenhum interesse.
Se limitou a me olhar dos pés à cabeça e dizer.
- Muito bem. Pelo menos não é mais tão magra.
Vindo dele, aquilo era um grande elogio.
- Obrigada.
- Disponha. – Ele passa por nós, apressado, abrindo a porta do laboratório. – Ah, Laura. Não se esqueça do celular.
- Está na bolsa. – Respondo.
- Preparei uma xícara de chá para você. – Diz ele. – Beba. E nada de álcool. Ou seu fígado vai ficar igual ao fígado com cirrose que encontramos naquele homem uma vez.
- Eu sei. – O médico sempre dizia aquilo. Mas desde que eu havia tomado vinho pela primeira vez, no dia em que ele havia me trazido para casa, simplesmente nunca mais me interessara pela ideia de beber alguma coisa alcoólica. – Até mais tarde! – Digo para Tia Olga, que acenou solenemente enquanto eu seguia para a porta.
Só quando eu já estava na rua é que me lembrei de que havia esquecido de beber o chá, e o médico detestava quando eu ou Tia Olga não o tomávamos. Mas eu lidaria com aquilo depois, ou iria me atrasar.
***
Eu pensava que o colégio onde eu estudava era uma confusão.
Mas com toda a certeza não chegava aos pés daquela festa. Era a experiência mais horrível da minha vida.
A música era ensurdecedora, as luzes piscavam, me deixando tonta, e havia adolescentes loucos se agarrando por todos os lados... Minha vontade era sair correndo daquele ambiente aglomerado antes que todos aqueles impactos em meus sentidos acabassem me matando.
Sabina e Jaqueline claramente não sentiam o mesmo, já que estavam em algum lugar no meio da multidão, ambas se remexendo no ritmo daquela barulheira de estourar os tímpanos.
E eu só continuava ali... Por causa de Carlos.
Assim que vi sua figura robusta surgir no meio da confusão, fui até ele, quase em desespero.
Ele sorriu ao me ver.
- Você está diferente. Está bonita...
Agradeço e ele diz alguma coisa, mas o barulho está tão alto que não consigo entender. Ele me oferece um copo e eu aceito, pensando ser refrigerante, mas logo percebo que se trata de alguma bebida alcoólica exageradamente doce.
Decido ignorar as ordens do médico e beber, como todo mundo estava fazendo. Carlos me puxa para dançar, me fazendo rodopiar pela pista e eu sinto meu estômago revirar. Aceito mais um copo e viro sem pensar, percebendo que o meu corpo, aos poucos, vai ficando anestesiado.
A música e as luzes fortes não me incomodam mais, porque parecem muito distantes agora. Carlos sorri para mim e eu rio, rio muito, até quase perder o fôlego. Nunca me senti assim antes, tão fora de controle. Mas não consigo achar essa sensação ruim.
Carlos se aproxima de mim e antes que eu perceba o que está acontecendo, ele segura o meu queixo e me beija.
Eu não esperava que um beijo fosse daquele jeito. A língua dele dá voltas na minha boca, quente e molhada. Não consigo gostar daquela sensação, ciente das mãos dele tateando a minha cintura.
Me afastei, ele sorriu e tentou me beijar de novo, mas o detenho delicadamente colocando minhas mãos em seu peito.
- Vamos sair daqui! – Grito para ser ouvida além da música alta.
Ele sorri, parecendo surpreso.
- Já? Para onde você quer ir?
- Para um lugar muito especial. – Respondo, devolvendo o sorriso. – Me encontre lá fora em 5 minutos. Preciso... Hmm... Retocar a maquiagem.
Ele dá de ombros.
- Ok.
- Espera. – Seguro o braço dele, aproximando meus lábios do seu ouvido. – Não conte a ninguém que vamos sair juntos, tudo bem? Eu sou nova, não quero as pessoas comentando.
Carlos acaricia meu queixo com as pontas dos dedos.
- Fica tranquila. Vai ser o nosso segredo.
Meu coração salta de felicididade e me afasto dele, indo até Jaque e Sabina, que dançavam do outro lado da pista.
- Tenho que ir embora. – Digo para Jaque.
- Agora? Acabamos de chegar!
- Não estou me sentindo muito bem. – Digo, pegando a minha bolsa. – Além disso, prometi para o meu pai que iria voltar cedo.
- Que chato. Quer que a gente te leve até em casa? – Pergunta Sabina, se abanando com as mãos para espantar o calor.
- Não precisa, meu pai veio me buscar. Está me esperando lá fora.
Me despedi das duas, pedindo que mandassem lembranças a Daniel por mim. Eu adoraria vê-lo tocar com sua banda, mas tinha outros planos para aquela noite.
Saí e vi Carlos fumando um cigarro do outro lado da rua. Fui até ele, sem conseguir conter meu sorriso, e ele segurou minha mão enquanto caminhávamos até minha casa.
Eu estava tão feliz que poderia explodir. Tudo o que eu queria era ficar a sós com Carlos. Eu, ele e o laboratório.

***
A casa, como sempre, estava silenciosa.
- É aqui que você mora? – Pergunta Carlos, olhando ao redor.
- É. – Respondo, distraída, tentando escutar algo. Mas parecia que o meu pressentimento estava certo. Não havia ninguém.
Segui pelo corredor mal iluminado com Carlos logo atrás de mim. Sem dizer nada, ele me segurou pela cintura e voltou a me beijar, de uma maneira que me deixou sem fôlego, mas de um jeito ruim.
O empurrei o mais delicadamente possível.
- O que foi, minha linda? – Perguntou ele, sussurrando perto do meu rosto. O hálito dele me lembrou o gosto forte e doce da bebida, e eu senti meu estômago embrulhar.
- Só um minuto. – Peço, me dirigindo ao laboratório. – Quero garantir que ninguém vai nos incomodar.
Entro no laboratório vazio e ascendo apenas as luzes azuladas de emergência. Encosto o ouvido na sala particular do médico. Nada.
Deixo a bolsa em um canto e visto meu jaleco. Em seguida, ligo a câmara de incineração para que ela comece a esquentar.
Minhas mãos estão trêmulas, mas eu tento controlar meu nervosismo. Me sento sobre a maca, com as pernas cruzadas, em uma postura que eu esperava que fosse atraente, e chamo por Carlos no meu tom de voz mais doce.
Ele entra no laboratório, parecendo surpreso e olhando em volta com curiosidade.
- Uau. Esse lugar é ernome.
- Meu pai é médico. – Digo. – Eu praticamente cresci nesse laboratório.
Ele se aproxima, pousando as mãos sobre as minhas pernas e me olhando nos olhos.
- Porque não me mostra o seu quarto, garota de laboratório?
Dou uma risadinha nervosa.
- Não, não. Temos muitas coisas para fazer aqui.
Eu seguro suas mãos, deslizando os dedos pelo seu pulso. Posso sentir as batidas do seu coração, o sangue em suas veias e artétias. Eu havia esperado tanto por esse momento...
- Se você prefere aqui, por mim tudo bem. – Diz ele, segurando um cacho do meu cabelo. – Até gostei da ideia do jaleco, mas o que acha de eu tirar o resto da sua roupa?
Mal contenho minha risada.
- O que? Não!
Garotos. Eles têm cada ideia!
Ele sorri.
- Então você é do tipo que gosta de provocar? Ótimo.
Carlos se inclina e começa a beijar meu pescoço. O rastro de saliva que ele deixa sobre a minha pele é meio nojento, então seguro seu rosto entre as minhas mãos.
- Porque você não se deita na maca? – Pergunto. - Assim eu posso começar a nossa noite especial.
Ele sorri.
- Tudo bem. O que você quiser, gata.
- E tire a camisa. – Peço – Por favor.
Ele me dá mais um dos seus sorrisos brilhantes e tira a camisa, sentando na maca enquanto eu desço, admirando o seu torço bronzeado e musculoso, quase com adoração. Passo a mão timidamente por sua pele perfeita, sentindo os músculos definidos.
- Por que você não se deita aqui comigo? – Pergunta ele. – Tem espaço para nós dois. Ou podemos trazer aquela outra maca para cá... Espera... O que é aquilo? – Ele olhava para a outra maca, onde um lençol cobria um cadáver.
- Nada importante. – Digo. – Apenas um objeto de estudo.
Carlos se senta, seu rosto perdendo um pouco a cor.
- Você quer dizer... Um corpo?
- É. – Respondo, sem entender a perplexidade dele. – Meu pai traz eles pra cá para que possamos estudá-lo. Mas ele já está velho e duro, cheio de formol. Não é vivo e quente como você.
Carlos me encara, sem nenhum vestígio de sorriso dessa vez.
- E você quer fazer isso aqui, do lado de um morto?
- Ele não vai nos incomodar, bobinho. – Digo, tentando empurrá-lo gentilmente para que ele volte a se deitar na maca.
Mas Carlos se recusa.
- Olha, isso já é demais pra mim. Não sei que tipo de fetiche é esse, mas definitivamente eu não curto esse tipo de coisa.
- Não é um fetiche! – Protesto. – É um hobby. Uma arte. Por muitos anos estudei anatomia humana com o meu pai e posso garantir que é fascinante.
- Mas o que eu tenho haver com isso?
- Ah, Carlos... Você não entende? Eu estou apaixonada. E hoje quero compartilhar essa paixão com você.
Ele engasga.
- Você quer que eu estude cadáveres com você?
Rio.
- Claro que não! O que você entende de anatomia? Eu quero que você se entregue a mim e seja meu.
Digo a úlima frase passando a língua sobre os lábios, como Jaque e Sabina haviam me ensinado, mas por algum motivo não consigo causar o efeito esperado.
- Fique longe de mim, você é pirada! – Exclama ele, com o rosto ficando vermelho.
- O que?
- Não acredito que perdi meu tempo vindo até aqui pra esse show de horrores. – Carlos veste a camisa, irritado. – Eu deveria saber que transar seria bom demais pra ser verdade, vindo da garota mais esquisita da escola.
- Eu não sou esquisita! – Grito, antes que eu pudesse me conter.
- É sim, Laura, é o que todo mundo acha! Mas como você é gostosinha, eu iria fazer um esforço hoje e esquecer um pouco que você age como uma retardada na maior parte do tempo. Mas é impossível transar com uma vadia maluca que provavelmente é viciada em necrofilia.
Eu não conseguia acreditar naquelas palavras horríveis. Comecei a tremer dos pés à cabeça e lágrimas encheram os meus olhos. Como alguém podia dizer coisas tão cruéis?
Eu estava paralisada, mas quando Carlos se levantou da maca, saí do transe e corri para a porta do laboratório, bloqueando a saída.
- Não! Você não pode ir! Por favor – imploro. – Não brinque com o meu coração!
Carlos dá uma risada seca.
- Coração? Você é completamente louca. Deveria ser colocada em um hospício. Deve ser algum tipo de psicopata. Me diz, qual o seu problema, Laura?
Qual o seu problema, Laura?
Me lembrei da Dona Inácia. De seus olhares de desaprovação, sempre desconfiada. Laura precisa ser vigiada. Ela não é uma criança normal. Ela sussurrava para os professores, achando que eu não ouvia. Nunca a deixe sozinha com as outras crianças. Não confie nela!
- Todas essas coisas podres... – Continuava Carlos, apontando com desprezo para a maca. – É uma doença! Você é nojenta!
- Não! – Grito, com lágrimas escorrendo pelo meu rosto. – Por favor, não estrague tudo!
- Saia da minha frente, seu monstro psicopata! – Grita ele em resposta.
Gritei, como se ele tivesse me agredido.
Fixei meus olhos na garganta dele.
Havia um nervo que saltava toda vez que ele gritava.
O desejo de acabar com aquele pesadelo partiu de mim e fez minha mão agarrar um dos bisturis na mesa, sem nem mesmo olhar.
Ele não teve tempo de reagir.
O bisturi foi direto para a garganta dele.
- Não era para ser assim! – Grito, começando a soluçar histericamente.
Senti o sangue quente de Carlos escorrer até a minha mão, enquanto seus olhos se esbugalhavam. Ele agarrou o próprio pescoço, engasgando com o sangue, mas eu não hesitei.
Desci o bisturi com violência várias e várias vezes, cortando sua pele até transformá-la em farrapos sangrentos. O sangue se espalhava pelo chão e eu me encharcava nele, mas eu não conseguia parar.
Repeti o gesto até seu coração parar completamente. Continuei até arrancá-lo do seu peito. E prossegui abrindo suas pernas e braços e retalhando seus órgãos até que o sangue começasse a esfriar e grudar em minhas mãos.
Depois, com muito esforço, arrastei seu corpo para o incinerador. Precisei usar toda a minha força para colocá-lo lá dentro, porque ele era muito mais pesado do que eu.
Fiquei observando-o queimar através do visor de vidro.
Primeiro o que restava da sua pele lisa e bronzeada se encheu de bolhas, depois começou a pretejar. Em alguns minutos, só restavam cinzas do cara que até então era o garoto mais popular da escola.
Não tive nenhum prazer em assistir aquilo.
Nada havia saído como eu planejara.
Queria ter aberto aquele peitoral com um bisturi adequado, mergulhar meus braços no sangue, retirar órgão por órgão daquele corpo em perfeita forma.
Mas agora eu me sentia tão mal que não conseguia explicar. Meu estômago estava ácido e minha cabeça dava voltas. Eu me lembrava de coisas, mas não tinha certeza de que elas haviam mesmo acontecido.
O que estava acontecendo comigo? Quem eu realmente era, afinal?
Olho para minhas mãos e braços ensanguentados, com pedaços da pele de Carlos sob as minhas unhas. Eu estava assim, praticamente devaneando com todo aquele sangue e morte, quando o médico chegou.

CONTINUA


3 comentários:

  1. Queridos leitores,
    Perdoem minha demora...
    Vou tentar ser mais pontual com a série, e logo logo teremos a 3ª Temporada do DIÁRIO DE UMA BAD GIRL...
    Mas vou pedir um pouco de paciência, pois no momento estou trabalhando no meu livro!
    Assim que eu terminar, postarei as informações sobre ele. Tenho certeza de que vocês vão curtir!!!
    Obrigada pela atenção de vocês, e amo de paixão suas visitas e comentários: me fazem sentir bem, me dão novo estímulo, e fazem o LOVE BLOOD crescer cada dia mais!!!
    Valeu, "galera", pelo apoio...
    Vocês são minha eterna TURMA FATALVILLE!
    Até o próximo post...

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  2. Gostei muito da serie Diário de uma bad girl
    como também estou gostando dessa serie A menina, o medico e o monstro, tipo; da um certo medo da menina, da forma como ela pensa, mas a serie acaba se tornando muito envolvente e super interesante
    estou louca para ler a próxima parte
    bjãoo

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  3. Amei todas as series q li,comecei a te seguir no recanto,e garanto q vou continuar em todos os sites!Amo suas histórias!Até a proxíma!!!
    beijokasssss...

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