sábado, 4 de maio de 2013

A RAINHA DOS GAROTOS

  A Rainha dos Garotos coleciona admiradores.
Forte, decidida, autoconfiante.
Ex-virgem.
    E por mais que ela seja linda, enérgica e dona de uma personalidade impressionante, não é por isso que ela conquistou esse título.
    A Rainha dos Garotos começou brigando. Deu seu suor e sangue para conseguir seu espaço na rua, antes dominada majoritariamente por garotos. Ela não se contentava em ficar em casa com bonecas e bichos de pelúcia, quando podia ter o mundo. Nem que precisasse bater e apanhar por isso.
     Custou para que os meninos reconhecessem que ela era uma adversária a altura de seus jogos e brincadeiras, mas, anos depois, foi muito fácil para os mesmos garotos, agora rapazes, a reconhecerem como uma candidata a altura de suas paixões.
Quem poderia resistir à Rainha dos Garotos? Ela dança bem, fala o que pensa, sempre encara as consequências dos seus atos e não tem um pingo de medo de ser diferente.
É claro que os caras piram.
É claro que as outras garotas da rua a odeiam.
Sai praticamente com um cara diferente por dia. Eles a beijam, eles a aquecem, eles a idolatram. Ela finge se entregar, mas ela apenas se diverte.
Ela sabe amar a si própria.
Vão se danar! Eu aproveito minha juventude.
Os comentários maldosos nem a atingem mais.
Ela não tem culpa de ser uma garota que entende um pouco de dança de rua, anda de skate e sabe falar a língua dos rapazes, mas sem perder sua identidade de loba selvagem.
Não tem culpa se todos eles, agora, se apaixonam.
Só que não há como não se importar o tempo todo.
Às vezes, trancada em seu quarto, a Rainha dos Garotos sente uma enorme frustração. Tão grande, que tem vontade de sair na rua e gritar, desafiando cada garoto ou garota, chamando-os para brigar. Mas nenhum deles atenderia mais ao seu chamado, apenas fariam gracejos e a chamariam para sair. 
Tão entendiante que ela tem vontade de gritar.
Ela gostaria de não se importar com isso, queria ser sempre descolada, desapegada, feliz e leve. Ficar com os caras quando sentisse vontade, sem nunca ser tocada por dentro.
Gostaria que as outras garotas fossem um pouquinho mais gentis com ela, a criticassem um pouco menos e vissem que ela não está fazendo nada de errado, nada de ruim.
Por que todos odeiam as pessoas felizes?
E esses garotos bobos, cheios de hormônios, com os cérebros nas cuecas... Quando um deles seria diferente?
Quando um, apenas um, faria seu coração bater mais depressa, entendesse o quão complexa e complicada ela era? Deixar de tratá-la como uma coisinha bonitinha que eles podiam exibir, e enxergá-la como a tempestade em forma de mulher em que ela estava se transformando?
A Rainha dos Garotos ergueu a cabeça.
Chega de lamentações. Amanhã é um novo dia para ser julgada por terceiros, mas continuar sendo a soberana, a dona da rua. Ir para a escola e ser paquerada por garotos com quem ela já havia trocado socos e feito apostas bobas, anos atrás.
Por enquanto, ela teria que se bastar. Ela precisava entender a si mesma, e, talvez, desafiar-se para novas brigas. Nenhum garoto poderia fazer isso por ela agora.
     E, quando saia atrasada para a aula e viu duas meninas enfrentando dois moleques maiores do que elas, exigindo o direito de também jogar queimada na rua sem saída, a Rainha dos Garotos percebeu que tinha uma carta na manga.
        Ela poderia treinar herdeiras para o seu legado.

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