terça-feira, 20 de agosto de 2013

O FORA DA LEI

      O Fora da Lei não era um criminoso de verdade.
Esse era apenas o apelido que os vizinhos e os pais de mocinhas superprotegidas haviam inventado pra ele.
O Fora da Lei usava jeans rasgados, brincos, camisetas desbotadas e o cabelo espetado para quinze direções diferentes.
Alguns diziam que ele era punk, outros juravam que ele tinha pacto com o demônio.
Mas o Fora da Lei mastigava a opinião deles e cuspia no lixo.
A verdade é que ele não era nenhum santinho.
Sim, na adolescência ele magoou algumas paixões. Quem nunca?
E sim, é verdade que o Fora da Lei já pichou algumas paredes por aí, mas isso foi apenas uma fase.
Agora o Fora da Lei descolou um emprego mequetrefe, terminou a escola após quatro - e não três - anos de Ensino Médio e passou bem longe de pisar em qualquer faculdade.
Ele não se preocupa muito.
Faz o que pode pra fugir da rotina, levar a vida.
Fuma seus cigarros.
Bebe com os amigos na sexta, sai pra se divertir com garotas bonitas, e, quando pode, invade os melhores shows que acontecem na cidade.
Mas, aos sábados, o Fora da Lei tem um compromisso.
Ninguém sabe, ninguém vê.
Quem iria perguntar?
Pra quem ele iria contar?
Acontece que o Fora da Lei, com sua carranca, seu mau caráter e sua índole tão ruim, acorda cedo todos os sábados, pega um trem e vai visitar o Asilo Municipal.
E, quando ele chega, recebe um sorriso enrugado por baixo de cabelos brancos.
O Velho.
E eles começam uma partida de xadrez, interrompida várias vezes por conversas de todos os tipos, que acabava durando o dia todo.
O Fora da Lei falava sobre tudo com o Velho.
Contava sobre as namoradas, as aventuras, o trabalho e sua vontade de ser alguém.
Em troca, o Velho reclamava um pouco das enfermeiras do asilo, depois contava sobre a sua juventude, com certa nostalgia, certo humor.
O Velho não era parente do Fora da Lei nem nada do tipo, e ninguém obrigava o jovem a ir ver o senhor.
Não se sabe ao certo como se conheceram, mas não passava um sábado que fosse sem que eles conversassem e rissem juntos.
O Velho não tinha filhos e nem ninguém no mundo.
E é claro que gostava que alguém o visitasse.
O Fora da Lei não fazia boas ações de graça.
Ia ver o Velho porque realmente gostava.
Gostava de saber que existia alguém mais velho, sábio e experiente que não o desprezava.
Pode parecer bobo, mas era surpreendentemente bom conhecer alguém com mais idade que sorria com sinceridade para ele, sem que o Fora da Lei precisasse fingir que era outra pessoa, lambendo o cabelo pro lado.
Em um belo dia, quando o Fora da Lei chegou ao Asilo, o Velho não estava na mesa de sempre, perto da janela.
O rapaz não fez caso, e se sentou para esperar.
Depois de alguns minutos, a enfermeira que o observava de longe se aproximou.
A notícia foi ruim.
O Velho tinha morrido naquela madrugada.
No meio dos poucos pertences dele, havia um bilhete para o Fora da Lei:

Nunca deixe sua força morrer. Você pode ser rebelde, rapaz, mas sempre seja esse homem de bom coração.

O Fora da Lei era o único presente no velório do Velho.
Chorou pela primeira vez em muito tempo.
Agora, aos sábados, ele pega outro trem, no sentido oposto ao asilo, e faz uma visita ao cemitério.
E passa algum tempo em um monólogo para uma sepultura.
E imagina o rosto enrugado sorrindo.
E tem certeza de que ainda pode ser ouvido.

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