segunda-feira, 12 de novembro de 2018

GATA BORRALHEIRA


As histórias existem para serem contadas.
Contos de fadas sobreviveram através dos séculos, não porque são bonitinhos, mas porque nos ensinam lições. Isso é, se prestarmos atenção.
Cinderela fuma cigarros agora, mas está tentando parar. Ela usa um par de tênis de cano alto, e não precisa de convites para o baile, mas sim que alguma empresa se interesse pelo seu currículo.
Ela descobriu que a Fada Madrinha era na verdade um cartão de crédito, e tudo se transformou em dívidas terríveis depois da meia-noite do quinto dia útil.
Mas ela ainda gosta de dançar. Só pegou aversão por sapatos desconfortáveis, que se perdem por aí. E quando dirige pela cidade em seu fusca laranja – não muito maior do que uma abóbora – espalha as vozes de mulheres cantando o bom e velho rock n’ roll.
“Mas e o príncipe?”, você me pergunta. O príncipe é um cara legal, mas ele se casou com uma duquesa em Londres. Cinderela assistiu pela TV. Bom pra ele.
Ela gosta de ficar sozinha. Contudo, apesar dos problemas no âmbito familiar, fez algumas boas amigas. Cinderela nunca pensou que poderiam existir mulheres que gostassem dela, mas a vida é mesmo uma caixinha de surpresas.
O único problema é que Cinderela está cansada de limpar. De lavar roupa, esfregar o chão, ariar panelas. É isso que ela fez a vida toda.
Quando morava com a madrasta, dizia a si mesma que era obrigada a trabalhar para compensar o desleixo das irmãs postiças, mas agora, em seu próprio apartamento, não há como ignorar: ela é obcecada por limpeza.
Esfrega o chão até suas mãos ficarem vermelhas, e se esforça tanto para eliminar cada partícula de poeira que suas costas doem ao final do dia.
E ela até poderia beber uma taça de vinho antes de dormir, mas não se atreveria a deixar a taça suja na pia até a manhã seguinte.
Você conhece essa sensação, de não se permitir um minuto para relaxar? Até em seus sonhos Cinderela está limpando e, quando acorda, seu primeiro pensamento é arrumar a cama.
Ela coleciona desinfetantes perfumados e nunca os confunde que os amaciantes de roupas. Não cozinha nada que leve molho ou que precise da batedeira. Gosta do cheiro de incenso, mas não tolera as cinzas caindo em seus móveis.
E o mais triste de tudo é que não importa o quanto ela prive a si mesma.
Nunca está limpo o suficiente.
Mesmo ao tomar um banho que deveria ser relaxante, Cinderela esfrega sua pele com a bucha, com força, com voracidade. É possível lavar o medo? A insegurança? Dá pra fazer a ansiedade escorrer pelo ralo?
Eu não sei. A única coisa que eu compreendo, nesse momento, é que Cinderela precisava de uma maneira de sentir que estava no controle da própria vida e do próprio destino, mesmo que tudo não passasse de uma ilusão do seu Fantástico Mundo da Faxina.
Até que um dia ela encontrou a Gata. Ou talvez a Gata a tenha encontrado. Ela era malhada e tinha as patas sujas. Parecia estar morando na rua há um bom tempo. Mas ela era tão dócil e pequena, como uma coelhinha...
O apartamento não permitia animais, mas Cinderela sabia que a vizinha morava com um cachorro. E que um porco morava no apartamento de baixo, a julgar pelo lixo na varanda.
Então ela apagou o cigarro e escondeu a Gata dentro do casaco, o que fez a felina ronronar. Passou em um pet shop e comprou ração, areia sanitária e shampoo anti-pulgas.
No apartamento, teve que ligar a TV em um volume desconfortavelmente alto para encobrir os miados desesperados no banheiro.
Foi duro, e Cinderela tinha arranhões nos braços quando terminou, mas a Gata estava limpa e seca. Como o resto do apartamento. Como o resto do seu mundo.
Mas a bichana logo encontrou uma maneira de se vingar, pulando pelas prateleiras e derrubando porta-retratos, livros  e os itens de decoração nada baratos.
Cinderela tentou manter a ordem das coisas. Tentou de verdade. Mas não havia como impedir os pulos ágeis da Gata e sua curiosidade felina.
- Olhe o que você está fazendo, sua Gata Borralheira! _ Exclamou.
Mas Cinderela não conseguia ficar realmente brava. Mesmo diante do caos. Da bagunça. Do descontrole completo.
Com um suspiro, deixou-se cair no sofá. O espelho da sala permitia que ela visse seus cabelos desalinhados, a camiseta molhada e os braços arranhados, além das unhas com esmalte vermelho descascando.
Pegou o controle da TV e mudou de canal. Estava passando uma comédia romântica boba. Tão boba que ela não fez questão de mudar de canal. Fez pipoca de microondas e encheu uma taça de vinho.
Voltou para o sofá, e logo a Gata se juntou a ela. Cinderela pegou no sono, com o balde de pipoca ainda com restos de milho ao seu lado e a taça suja de vinho sobre a mesa de centro. Seus dedos salgados por causa do sal da pipoca. Ela não havia escovado os dentes, nem trocado de roupa, e a TV ainda estava ligada.
Cinderela não dormia tão bem há tempos. E naquela noite sonhou com alguma outra coisa, que não tinha nada a ver com sua mania de limpeza. Ela podia se preocupar com a bagunça amanhã.
As histórias podem ser muitas coisas, menos bobas.
Bobas somos nós, quando acreditamos que podemos controlar ou prever o nosso próprio destino – seja ele um belo príncipe, sapatinhos de cristal ou uma gata vira-lata.

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