quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

SOBRE MULHERES E LOBOS

DONZELA

Arrumei o pão caseiro, o chá de hortelã e os ramos de açafrão na sacola de tecido. Ainda não havia anoitecido, então me arrisquei pelo caminho mais longo. Queria colher crisântemos para a minha vó.
A lua crescente era apenas um risco no céu pálido.
Fazia algum tempo que eu não a visitava. E agora, que a minha vó estava doente, me sentia culpada por aquela ausência. Por muito tempo havíamos sido muito próximas, quase inseparáveis.
Me lembro de uma ocasião em especial, quando eu tinha apenas 11 anos. Uma coisa assustadora havia acontecido comigo na escola e, em vez de pegar o ônibus e ir para casa, corri por quase dois quilômetros até a casa da minha vó.
Encontrei-a trabalhando no jardim, usando um grande chapéu para proteger seus olhos do sol. E, com horror e choque e constrangimento, lhe mostrei a mancha de sangue na minha calça.
Mas minha vó nunca se abalava por nada. Ela preparou um banho quente para mim e me deu roupas limpas – entre elas uma blusa vermelha com capuz. Então, pela primeira vez, enquanto trançava meu cabelo, ela me falou sobre os lobos.
Ela me disse que os lobos sentiriam o cheiro do meu sangue, então eu deveria ter muito cuidado a partir de agora. Diante do meu medo, ela me explicou que logo eu aprenderia a lidar com eles, embora jamais pudesse baixar a guarda.
A partir daquele dia, eu evitaria sair de casa sozinha, principalmente durante a noite. De vez em quando, chegavam até nós notícias de que os lobos haviam pego alguma menina da minha idade. Algumas vezes, a vítima era até mesmo mais nova. E o pior era que nem sempre os caçadores conseguiam encontrar os animais.
E eu vivia assim, assombrada pelos uivos, porque sabia que eles não iam, não iam parar.
Mesmo com tantos casos de ataques e mortes e alcateias, ainda havia pessoas que culpavam as meninas. Por andarem a noite sozinhas. Por se arriscarem pela floresta. Por colherem crisântemos ao pôr-do-sol...
Aperto o passo e puxo o capuz da jaqueta vermelha sobre minha cabeça. Tenho que chegar à casa da minha vó antes que anoiteça. Antes que os primeiros uivos, que começam a ecoar ao longe, me alcancem.

***
MÃE

Coloco os ingredientes da sopa no grande caldeirão de ferro – herança de família – e espero a água ferver. Abro a janela para deixar a luz da lua cheia entrar na cozinha, e o vento faz as chamas das velas aromáticas tremeluzirem.
Fazer sopa atrai fartura para a casa. Era uma superstição, mas eu acreditava nela.
Tenho vontade de dançar ao redor do fogo. E então os lobos, atraídos pelo cheiro da sopa, cercariam a casa na escuridão. Sei que o brilho das minhas chamas os manteriam afastados, mesmo famintos.
E então eu dançaria com eles, usando pimenta do reino e outros temperos para mantê-los dóceis e ao mesmo tempo obedientes aos meus comandos.
Contudo, esta noite não consigo me entregar ao prazer, mesmo com o fogo tão alegre, as chamas altas e o caldeirão borbulhando.
Tenho medo pela minha filha, correndo dos lobos ferozes, deixando que eles sintam o cheiro do seu medo. Gostaria de estar ao lado dela, mostrando como a simples luz de uma vela é capaz de espantar a mais densa escuridão.
Entretanto, preciso deixá-la ir ao encontro do seu próprio destino. Foi assim que eu aprendi, e foi assim que a minhã mãe também aprendeu, muito antes de eu nascer.
Assim como o caldeirão de ferro onde eu cozinho a sopa, a coragem é uma herança das mulheres da nossa família. Estamos destinadas a ela. Mesmo assim, hoje eu sei: a coragem costuma ser uma bênção, mas em alguns casos, devido ao mau uso, pode se tornar uma maldição.

***
ANCIÃ

As folhas caídas no parapeito da janela estão secas. A árvore no quintal está morrendo e é incapaz de continuar dando frutos. A lua minguante está desaparecendo aos poucos, e eu já posso imaginar o céu totalmente escuro.
A lua nova está vindo. Um ciclo termina, outro começa. Assim como sempre foi. Assim como sempre será. Que assim seja, que assim se faça.
Não tenho medo. Veja os meus braços: ainda há alguns músculos aqui, apesar da pele flácida. Esses são os braços de uma domadora de lobos, que já viveu entre as alcateias e conseguiu, em algumas situações, enfrentar e vencer o lobo alfa.
Naquele tempo era muito difícil encontrar uma mulher que ousasse enfrentar os lobos. Mas hoje, para a minha satisfação e surpresa, há cada vez mais delas correndo pelas matas, livres e fortes. Quase sem medo.
A última vela está se apagando. E posso ver os olhos brilhantes dos lobos lá fora, esperando. Seus ganidos e arquejos impacientes revelam o quanto estão ansiosos e famintos. Fome de carne, sede de sangue.
Tudo bem, estou pronta. Está na hora. Levem-me com vocês.
Vou soprar a última vela.
Não tenham medo.
Podem se aproximar, agora.

***
DONZELA

Está cada vez mais escuro e os uivos ficam cada vez mais altos. Corro depressa, o mais rápido que eu consigo, segurando a alça da sacola com força. Mas eu sei que é tarde demais. É tarde, tarde demais.
Não há nenhuma luz acessa na casa, nem uma única vela. Meu corpo inteiro está tremendo quando entro na cozinha. Os lobos já estavam lá, calmos e mansos depois de terem se banqueteado com a carne da minha vó.
Encontro seus ossos perto da janela e de uma vela apagada. Cubro cada um deles com os crisântemos e não consigo conter as lágrimas.
Eu não choro pela minha vó, a guerreira invencível, a corajosa domadora de lobos, que permitiu que eles devorassem seu corpo ao dar seu último suspiro. Eu choro por mim, a menina, sua neta, que perdeu sua amiga, protetora, guia.
Fico por um longo tempo ali, derramando minhas lágrimas sobre flores e ossos. Começo a cantar uma canção antiga, em uma língua já esquecida. Uma canção de luto.
Vejo os crisântemos se enroscarem nos ossos, como se os guardassem. Acendo a vela e os olhos dos lobos ao meu redor também se acendem, alertas. Todos eles se levantam e, silenciosamente, formam um círculo ao meu redor.
Não posso mais ter medo. Preciso honrar o sangue da minha vó, o sangue da minha mãe, o meu sangue – que um dia também será o sangue da minha filha e, depois, da minha neta.
Vou até um dos lobos da alcateia. Um lobo de pelagem escura, o maior que eu já vi. Prendendo a respiração, subo em suas costas, me agarrando ao seu pelo macio e denso.
Ele começa a correr, e sinto o vento passando pelo meu rosto e pelo meu cabelo. O capuz escorrega da minha cabeça, e quando crio coragem para abrir os olhos, vejo a noite e todas as suas estrelas passarem por mim como um borrão.
Os outros lobos nos acompanham, e quando eles começam a uivar, sinto um calafrio na espinha. Mas isso não me impede de uivar junto com eles, lançando minha voz na direção da lua.
Quando passamos por uma clareira, noto que outras alcateias estão se juntando a nós, e em cada uma delas há pelo menos uma mulher selvagem correndo com os lobos, uivando e até mesmo os liderando.
E mesmo com a incerteza, o luto e a dor, não consigo evitar um sorriso.
Porque sei que a minha vó ficaria orgulhosa.

***
Conto Vencedor do Prêmio Barueri de Literatura 2018
Categoria Conto - Autores Residentes Maiores de 18 Anos
1º Lugar

2 comentários:

  1. Que conto sensacional... Imaginei diversos cenarios com essa história...
    Prêmio super merecido! Parabens! Continue nos enchendo de emoção, pensamentos e ansiedade por mais e mais dos seus contos, peças, etc. ������ Bjoo

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